A casa Poema deseja a todos um ano bom, farto, genial, criativo e corajoso. Fiquem agora com a crônica da nossa Elisa Lucinda, como mensagem de novos tempos.
Abraços poéticos,
Raquel Corbetta
e
Equipe Casa Poema
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Carta aberta ao meu primo Joaquim bendito - (parte um),
Meu querido primo Joaquim , não vou me valer aqui do fato de ser sua parente, meu supremo primo, mas há coisas que não posso deixar de dizer e o assunto é vasto. Como eu disse à sua mãe, a tia Benedita, sua posse é o acontecimento cívico ao qual muito me maltratou faltar. Infelizmente não pude. Mas, creia-me, sou convidada para sua festa antes de você existir. Lá no meu sonho, na sala nobre da esperança, apelidada por tantos de utopia, você já existia, meu nêgo. Esse é o destino dos justos quando conseguem alcançar seus merecidos patamares. Estou muito feliz por esse novo Brasil que tem hoje esse negão como símbolo.
Vivo tentando identificar meus preconceitos para não cair na incoerência de, ao lutar contra as discriminações, ser, sem querer, em alguma instância, racista também, preconceituosa também. Mas, para além dessas doenças conceituais, há os times, desde as ancestrais arenas. O que estou dizendo é que, até ao escolher amigos, temos uma espécie de critério, uma cartilha ética invisível cujos quesitos habilitam ou não aquele ser a ingressar na turma de gente nossa. Neste sentido, para muitos, você, Joaquim, é o nosso herói de agora, um herói preto, coerente e possível. Sua vitória é a nossa vitória, primo. Por incrível que possa parecer a muitos, é um negão que agora representa o time dos honrados, dos sonhadores, os de bom caráter, os que acreditaram nos artigos e parágrafos da Constituição, os que pagam seus impostos confiantes de que cada dividendo desse é um tijolo na construção do progresso do seu país. Não sou daquelas que acha que se um cidadão cometeu um erro, ele é errado em tudo. Mas fiz uma hipótese: e se cada um dos réus, um dos condenados, por acaso, fosse também racista? Será que de noite, no escuro do confortável travesseiro, antes da cadeia, depois de ouvir a sentença, esse indivíduo condenado não terá pensado na calada da noite, com seus brancos botões: “Mas não é que aquele macaco me condenou? O gorila fdp conseguiu me botar na cadeia, não tô acreditando! Pior é que eu não posso nem falar uma coisa dessa, porque agora eles estão com essa palhaçada de que racismo é crime, e é capaz de eu me complicar ainda mais e agravar minha pena, por causa daquele chimpanzé!”. Ai ai. Eu sei que é preciso ser muito macho para fazer o que você fez, Joaquim! E mais que isso, é preciso ser independente, não ter rabo preso, para poder manter a cabeça erguida e a voz valiosa. Por isso a presidência do Supremo que você inaugura, como o primeiro negro a ocupá-la, inaugura também um novo tempo. Queiram ou não, a democracia avançou. Há os que têm saudade da escravidão, há os que ao ouvirem a dosimetria, mesmo tendo estes sido flagrados roubando o dinheiro público, ou seja, dinheiro nosso, insistem em se perguntar: “onde está o tronco uma hora dessa e a chibata pra botar esse nego pra cantar?”. Parece exagero meu, mas ainda há um Brasil sórdido, atrasado, corrupto ao qual você com sua coragem vem confrontar. Ao desestabilizar as estúpidas convicções com seu puro entendimento da lei, você interferiu no rumo de nossa história. Você, meu querido Supremo Ministro do Tribunal da Justiça Federal, ressignificou o mito do Zumbi, deu valência ao esforços de tantos homens de bem que lutam para que a sociedade seja plena de homens da sua linhagem, que poucas vezes se veem tão bem representados. Hoje o Brasil comemora uma fatia muito importante do sonho político de uma sociedade que tanto sofre com os desmandos, corrupção e traição contumazes de seus representantes. Obrigada excelentíssimo primo Joaquim, nossa juventude agradece a sua presença e comemora: a coisa agora tá preta! E muito boa!
Elisa Lucinda.
Ps: Você quer acessar a parte dois dessa carta? Entre no meu blog http://www.escolalucinda.com.br/alira/ e na minha página no facebook: https://www.facebook.com/elisalucinda, a partir de terça feira que vem, dia 18, para ler a continuação desta missiva. Beijos